segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Shakira mata a cobra e mostra o mangusto em novo DVD


Se você ouviu os dois últimos álbuns de Shakira e não gosta da cantora colombiana, é muito difícil que a edição de CD e DVD de "Live & Off the Record" vá fazer com que mude de idéia. Mas se a última imagem que tem dela é a da cantora adolescente de dez anos atrás que agora parece ter voltado americanizada, dar uma olhada no competente show da colombiana pode melhorar sua opinião sobre a moça.
O segundo DVD da carreira de Shakira (o primeiro foi o MTV Unplugged) traz sua primeira turnê depois que começou a cantar inglês e ultrapassou as fronteiras da América Latina. "Live & Off the Record" registra em video e CD o show gravado em Roterdã para divulgar seu último álbum, "Laundry Service", que vendeu 11 milhões de cópias em todo o mundo. AP
O show reforça as diferenças entre a colombiana e as demais divas pop de sua geração: Shakira tem uma voz forte e singular, não tem bailarinos, não faz trocas de roupa mirabolantes, não usa chapinha. O show é grandioso, claro, como convém a uma popstar. Mas a cantora imprime seu estilo e mantém a mistura que a consagrou, sem medo de suas raízes latinas e árabes - combinação quase explosiva num hemisfério norte sobressaltado.
Em sua primeira interação com o público - holandês - Shakira se dirige em espanhol aos colombianos. "Onde está minha gente?", pergunta. Diante da ovação, afirma: "Sabia que estavam aqui". Só então parte para o boa noite geral, em inglês. Reprodução
A "Turnê do Mangusto" é uma alegoria usando o nome do pequeno roedor capaz de matar cobras venenosas. De acordo com a própria cantora, "se o mangusto é capaz de matar a cobra, ainda há esperança". Durante o show, são exibidas imagens do bicho fofinho dando cabo de uma naja. Mas durante a performance da social "Octavo Día", ela é mais direta: seus músicos tocam usando máscaras de políticos enquanto o telão mostra George W. Bush e Saddam Hussein jogando xadrez, manipulados pela morte.
Mas evidentemente que nem tudo é engajamento político num show pop. Assim, sobram exibições de rebolados, sempre em calças justíssimas e pés descalços. As habilidades da filha de libanês com a dança do ventre são impressionantes e isso não é novidade para a cantora, que abre o show se chacoalhando ao som do megahit "Ojos así" e encerra mexendo o umbigo na tradicional dança do candelabro - em que a dançarina usa uma luminária cheia de velas acesas na cabeça - em "Whenever, Wherever". Apesar disso e dos momentos em que se arrisca na bateria e na guitarra, Shakira mantém a prioridade de sua performance: ela é uma cantora, e apesar de sua energia e de sua interpretação quase teatral, a apresentação não se rende à pirotecnia ou a coreografias intermináveis.
A única gravação inédita é o cover de "Back in Black", do AC/DC, uma das bandas preferidas da colombiana - que diz amar o rock sobre todos os estilos musicais, mas considerar o "Deus pop muito mais flexível". Além de preconceito pop, não existem motivos para os fãs da banda australiana perderem o sono à noite por causa da regravação, que é razoavelmente fiel e tem um interessante início em clima de blues. Além disso, o tango/rock "Objection" ganha uma introdução "olodunesca". O restante do set list não tem grandes novidades e é composto de hits, embora os fãs brasileiros devam sentir falta de sucessos mais antigos como "No Creo" e "Buscando um poco de amor".
O destaque do DVD fica por conta do caprichado documentário dirigido por Ramiro Agulla e Esteban Sapir. A fórmula é a clássica mistura de entrevistas e cenas de bastidores e shows, mas o diretor vai fundo - tão fundo quanto se pode ir num vídeo de divulgação, claro - e faz monta um perfil em que a cantora se mostra uma menina sensível, mas determinada e perfeccionista. Ela fala sobre assuntos que vão de sua paixão por chocolate à situação política da Colômbia, passando pelo medo da morte e por seu problema com o povo argentino por causa de seu relacionamento com Antonio de la Rúa.
Não faltam nem as colegas de escola contando como ela nunca conseguia entrar no coral por causa de sua "voz de bode". Um dos pontos altos é o processo de composição e rejeição de uma música sua por um estúdio cinematográfico, e a tensão sobre a possibilidade ou não de um show na Argentina. Nas duas situações, assim como no palco, Shakira, pequena e bonitinha, deixa claro o porquê de sua identificação com o tal mangusto.

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